Um verdadeiro escândalo administrativo veio à tona em Caldeirão Grande do Piauí e pode abalar profundamente a política local. O Ministério Público do Estado do Piauí (MPPI) ingressou com uma ação por improbidade administrativa contra o atual prefeito Douglas Filipe Sousa Gonçalves, o ex-prefeito João Vianney de Sousa Alencar e a atual secretária municipal de Administração, Luciana Francisca de Carvalho, apontados como protagonistas de um esquema que envolve servidor fantasma, nepotismo e fraude documental.

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A denúncia é grave e revela um mecanismo sofisticado que, segundo o MP, funcionou por quase uma década dentro da estrutura da prefeitura. No centro do caso está uma agricultora da região, identificada como Raylane, que teve sua vida virada de cabeça para baixo ao descobrir que constava como funcionária pública sem nunca ter trabalhado para o município.

Agricultora usada como “laranja” sem saber

O caso começou a ser desvendado quando Raylane tentou solicitar um benefício previdenciário junto ao INSS. Para sua surpresa, o pedido foi negado sob a justificativa de que ela não cumpria os requisitos para trabalhadora rural. O motivo? O sistema apontava que ela possuía vínculos urbanos ativos — algo totalmente desconhecido por ela.

De acordo com o Ministério Público, o Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS) indicava que a agricultora teria ocupado cargos como “secretária executiva” e “dirigente pública municipal” entre os anos de 2013 e 2022, com salários que variavam entre R$ 1.500 e mais de R$ 3 mil.

No entanto, a realidade era outra: Raylane jamais exerceu qualquer função pública, nunca recebeu salários da prefeitura e sequer tinha conhecimento de que seu nome estava sendo utilizado em registros oficiais.

Fraude para esconder identidade e desviar recursos

As investigações avançaram e revelaram um ponto ainda mais alarmante. Segundo o MP, os dados da agricultora teriam sido usados para ocultar a verdadeira ocupante do cargo: a então primeira-dama do município, Luciana Francisca de Carvalho, esposa do ex-prefeito João Vianney.

Para o órgão, não há indícios de erro administrativo. A prática teria sido deliberada, com o objetivo de esconder a identidade real da beneficiária e permitir o recebimento irregular de salários pagos com dinheiro público.

“O caso não se trata de uma simples falha burocrática, mas de uma fraude estruturada e mantida ao longo de anos”, destaca trecho da ação.

Nepotismo escancarado

Além da fraude documental, o Ministério Público também aponta a prática de nepotismo. A nomeação da esposa do então prefeito para um cargo público já levanta questionamentos legais, mas o agravante, segundo a denúncia, está na tentativa de mascarar essa relação por meio do uso indevido de dados de terceiros.

A manutenção do esquema por quase dez anos também reforça, na avaliação do MP, a participação direta e consciente do ex-prefeito João Vianney no caso.

Atual prefeito também é alvo

Embora não tenha iniciado o suposto esquema, o atual prefeito Douglas Filipe Sousa Gonçalves também foi incluído na ação. O Ministério Público aponta que ele teria adotado uma postura omissa e até mesmo obstrutiva durante as investigações.

De acordo com a denúncia, o gestor tentou minimizar o caso classificando-o como “erro humano”. No entanto, o MP afirma que houve resistência no fornecimento de documentos essenciais para a apuração completa dos fatos.

Entre os documentos não apresentados estão fichas funcionais, comprovantes de pagamento e registros administrativos que poderiam esclarecer a dimensão do prejuízo aos cofres públicos.

Essa falta de transparência levanta suspeitas de tentativa de ocultação de provas, o que agrava ainda mais a situação do atual gestor.

Prejuízo milionário e pedido de bloqueio de bens

Com base nos dados levantados, o Ministério Público estima que o prejuízo causado ao erário ultrapasse R$ 257 mil, valor referente aos salários pagos ao longo dos anos dentro do esquema investigado.

Diante da gravidade dos fatos, o MP solicitou à Justiça o bloqueio de bens dos envolvidos como forma de garantir o ressarcimento aos cofres públicos.

Além disso, a ação pede a condenação por improbidade administrativa, o que pode resultar em penalidades severas, como:

Perda de função pública

Suspensão dos direitos políticos

Pagamento de multa

Proibição de contratar com o poder público

Caso pode ter desdobramentos maiores

O escândalo levanta questionamentos sobre a gestão pública no município e pode abrir caminho para novas investigações. Há suspeitas de que o esquema não seja isolado, o que pode ampliar ainda mais o impacto político e jurídico do caso.

Para especialistas, situações como essa evidenciam falhas graves nos mecanismos de controle e fiscalização dentro das administrações municipais, além de reforçarem a necessidade de maior transparência na gestão dos recursos públicos.

Enquanto o processo segue na Justiça, a população de Caldeirão Grande do Piauí acompanha com indignação mais um caso que coloca em xeque a credibilidade da classe política local.